2013/11/07

UM CIDADÃO DE MERDA

Acordo todos os dias com a sensação de que vivo num país virtual. Por um lado, o acordar não é diferente daquele que tem sido ao longo da minha vida. Por outro, ao olhar o mundo do lado de fora da minha casa, apesar de diariamente me esclarecerem sobre a existência de uma crise, ouço o ruído do tráfego, vejo os carros a apitar, transportando apenas um passageiro – neste caso o condutor -, e a fila na esplanada do bar no rés-do-chão para tomar um pequeno-almoço entre os 3 e os 5 €.
Ligo o rádio, no qual ouço aquelas notícias perniciosas, que nos dizem que apenas a classe média paga a crise, a classe baixa passa fome, mas os ricos estão cada vez mais ricos.
Quando regresso do banho, ligo a tv. Um analista financeiro lembra-me que, apesar de mais de 30 anos de lucros pornográficos, as empresas cotadas na bolsa valem cada dia menos. “What the Fuck is this?” – pergunto a mim mesmo.
Desço as escadas, pego na bicicleta, e lá vou eu para o trabalho. Pelo caminho, irei enfrentar as asneiradas arquitectónicas da cidade, sabe-se lá se cometidas por negligência, ou se para facturar aquilo que não se fez, o trânsito carregado de gente arrogante a conduzir, como se o mundo estivesse todo contido naquele espaço à sua volta, e o correio de hoje, à entrada do meu gabinete, com contas cada mês maiores, cada vez menos cheques para pagamentos, algumas tentativas de cobranças coercivas a dívidas que nunca fiz, mas que vou ter que penar para o provar (apesar de a entidade que o alega apenas ter tido o trabalho de inventar uma factura).
Telefono à empresa, que me garante que, apesar de eu não viver há 20 anos na morada em causa, foi agora descoberta uma factura por pagar anterior a essa data. E que, como eu sou um cidadãozeco de merda, o Juiz, assinou aquilo, porque, na minha inferior qualidade, só tenho é que assumir as coisas assim.
Chega a hora de almoço sem que eu nada tenha produzido para a minha empresa, porque passei a manhã a justificar o inenarrável.
À tarde, abro a última carta. Apesar de ter o pagamento mensal de um serviço em dia, uma senhora advogada envia-me uma notificação com ameaça para pagar a mensalidade daquele mês, sob pena de processo judicial. Telefono imediatamente para a empresa a pedir explicações, e dizem-me o seguinte: “Foi alterada a titularidade do seu serviço que, a partir da próxima semana lhe será desligado, passando a pertencer à empresa … tal”. Como nunca solicitei nada disso, fiquei confuso, e pensei se ultimamente teria assinado algum documento autorizando a mudança da titularidade. Mas não. Com esta empresa, até hoje, apenas assinei um documento há 5 anos atrás para aderir ao serviço.
Concluindo: Acordo, vou trabalhar, não poluo, pago as contas, tenho as costas largas, etc. SÓ POSSO SER UM CIDADÃOZECO DE MERDA!

Cumprimentos.